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TEXTOS E LITERATURA SOBRE CANTE

 

GRUPOS CORAIS - É TEMPO DE MUDAR DE RUMO
(Reflexão sobre a organização e o papel dos Grupos Corais)


Os poderes assistem impávidos e praticamente indiferentes à delapidação, ao apagamento e até mesmo ao aviltamento do património mais rico desta terra e da nossa gente. Falta-lhes claramente a consciência da importância que o cante tem como elemento socialmente agregador, parecem estar destituídos da noção do valor que é inerente à expressão vocal do nosso povo, mostram-se alheados do seu estado e também dos cuidados que deveria haver para tornar mais sólida essa nossa matriz cultural.
Não planeiam, não projectam e por isso não executam nenhuma estratégia de valorização do cante. Não buscam encontrar com os protagonistas medidas a adoptar no sentido do favorecimento da afirmação da moda.
Recusam-se a dar um tratamento ao cante que tenda a projectá-lo para o nível de prioridade cultural primeira.
Assim, aos Grupos não é conferido estatuto artístico e quando para eles olham, mesmo sem desdenhar, nunca lhes conferem importância em termos orçamentais ou logísticos e muito menos no que respeita à consideração e ao afecto que lhes devia merecer.
Qualquer Grupo Coral supera um número de elementos, em entrega, em actuações e em representatividade, o plantel do grupo de futebol local, mas a todos é fácil constatar quais os apoios que anualmente estão reservados a um e a outro. Enquanto assim for, e só deixará de o ser quando a actual atitude for modificada, uns são atletas, vedetas, campeões e os outros são os coitados que cumprem um quase dever de arrastar consigo o peso duma tradição a que, só às vezes, e quando dá jeito importa lembrar e enaltecer.
Também por isso, a participação ou a simples identificação com o fenómeno bola é querida e invejada, sendo, ao invés, a motivação pelo cante progressivamente arredada das preferências da nossa gente, em particular, da juventude.
Sabemos que o problema em questão é de grande complexidade e de difícil solução, mas consideramos também que, por isso mesmo, não se pode deixar passar, passivamente, mais tempo sem que nada se faça para evitar a sangria de emoções presente que irá inevitavelmente transformar um fenómeno cultural de massas numa prática restringida à intervenção de uns poucos que, por razões específicas, conseguiram resistir às adversidades e, temporariamente, manterão o cante ainda vivo com maior ou menor rigor.
Desta realidade não cabe a responsabilidade em exclusivo aos poderes, e referimo-nos a todos, mas não podemos ignorar que são eles que tudo influenciam e quase tudo determinam.
Também não queremos acusá-los de terem, deliberadamente, movido contra o cante um processo persecutório, mas não podemos deixar de constatar que quando se interessam pelos Grupos ou pela moda o fazem sempre de um modo frouxo, parecendo-lhes que já dão mais que a conta, deixando sempre evidenciar uma atitude de algum distanciamento que resulta não de cautelas políticas mas antes de preconceitos socioculturais. Há tiques que são indisfarsáveis e há atitudes que são bem denunciadoras do real conceito que têm do trabalho cultural e da valia artística dos corais. Existe, efectivamente, um tratamento pouco empenhado, aligeirado e, às vezes, oportunista relativamente aos Grupos quando os consideram gente que canta só por cantar e que sempre o fizeram daquele modo, incondicionalmente, a troco de coisa nenhuma, só para aliviar as suas mágoas ou tensões.
A génese do cante, o meio em que se desenvolveu e o suporte socio-económico que lhe emprestou a alma são, porventura, as razões principais do tratamento menor que os poderes lhe destinam. Os colarinhos brancos nunca cantaram a moda, só excepcionalmente se misturam com ela e ainda agora assim o é. Uma estratificação social tão vincada como foi e ainda é a nossa, criou barreiras que isolaram a moda no domínio dos esforçados, no mundo dos desesperados do ter, sem que a força das raízes ou a luz do intelecto tivessem até agora conseguido romper brechas nas muralhas do seu isolamento.
Os Grupos começam a encontrar pela primeira vez o seu rumo e a sua organização conducentes ao estabelecimento de critérios para unificarem o seu proceder visando a dignificação da sua expressão vocal e, consequentemente, a nossa identidade. É altura de lançarem um olhar sobre si mesmos, reflectirem, melhorarem a conduta e o aspecto e discutirem regras e condições de participação em quaisquer eventos. Chegou o tempo de não pedirem nem pagarem para os deixarem cantar. Devem aprender com os erros do passado e não embarcar à toa atrás de convites onde o cante é só um pretexto para encher cartazes de festas ou engrossar manifestações, mesmo que tenham por lema a defesa da tradição ou a cultura popular.
É tempo de se olhar para os Grupos Corais como agentes culturais de grande mérito e considerar-se arte de grande valia a actividade que desenvolvem.
É tempo de estimarmos o seu trabalho e invejarmos a sua produção.
É tempo de os Grupos Corais se afirmarem como parceiros culturais privilegiados em cada concelho e a moda alentejana ser considerada património cultural do Alentejo.

Alvito,14 de Outubro de 2001

José Francisco Colaço Guerreiro


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