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TEXTOS E LITERATURA SOBRE CANTE

 

CANTES AO MENINO

No escuro da noite acendia-se a luz da solidariedade, a chuva e o frio só importunavam os corpos porque os espíritos irradiavam calor, como se à volta do grupo muitas fogueiras ardessem.
Grupos de homens ou de mulheres com algumas crianças atrás, percorriam as ruas com paragens previamente escolhidas junto de certos portais, donde podiam trazer esmola em dinheiro ou oferta comestível.
Mas nem sempre o cante ao menino, as janeiras e os reis, se fazia por interesse.
Presenteavam-se também os amigos e os conhecidos com estes cantes tradicionais, interpretados nestas circunstâncias, com mais devoção, com maior sinceridade.
Quando assim era, as portas abriam-se de par em par. Entravam todos. Punha-se a mesa. Servia-se aguardente aos homens e anis às mulheres com filhós e bolos caseiros para acompanhar.
Um ou outro mais friorento ou mais afoito chegava-se à chaminé para aquecer mãos e pés.
Depois continuavam noite fora, visitando amigos, desejando anos bons, repetindo as paragens, vertendo copinhos, adoçando a boca com bolos tendidos com todo o preceito.
Estes cantes, estes sons, ou outros estares, as outras atitudes, o receber e convidar eram tradição que por estas bandas se perdeu em nome da modernidade, da evolução e do desenvolvimento.
Como estamos mais pobres agora, como são mais frias as noites desde que as fogueiras da amizade já não aquecem os espíritos como dantes acalentavam, não quando se pedia por falta, mas quando se dava o carinho que transbordava dos corações ao cantar-se o menino, as janeiras ou os reis em casa de gente amiga!

José Francisco Colaço Guerreiro


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