| O ENCONTRO
DA "MODA" EM ALVITO
No dia 14 de Outubro de 2001 realizou-se no Alvito o Encontro
da MODA que debateu, em diversas intervenções,
a "Arte e a Técnica do Cante", "O Cancioneiro",
"O Cante como Expressão Artística"
e a "Organização de Grupos Corais".
Estiveram presentes cerca de 30 Grupos
Corais num total de mais de 120 participantes que reflectiram
e discutiram em profundidade os temas propostos. As intervenções
de base foram apresentadas, entre outros, pela Prof. Drª
Salwa Castel-Branco (A polifonia do cante alentejano), José
Francisco Colaço (A continuidade do cante e organização
dos grupos), mestre Joaquim Soares (os ensaios e o cancioneiro),
Dr. José Miranda (o cante como expressão artística).
O Encontro foi extremamente vivo e participado,
na abordagem dos diversos temas, salientando-se das diferentes
intervenções (e sem procurar extrair conclusões)
as seguintes posições:
1. "Arte e Técnica do Cante":
- "o cante obriga a uma aprendizagem
permanente, efectuada nos ensaios, não bastando a um
cantador que tenha boa voz. O mestre do grupo deve ter conhecimentos
técnicos e saber usar, nomeadamente, a colocação
da voz. O mestre deve dominar todos os pormenores da "moda",
conhecer-lhe o estilo e adequar a quadra. Não deve
desvirtuar o cancioneiro, introduzindo alterações
na melodia ou modificando os versos da "moda".
- "Os ensaios são a escola do cante". Cada
Grupo tem a sua forma de ensaio, mas o mais importante é
o entendimento entre o mestre e o Grupo; no entanto, cabe
ao mestre determinar a evolução do grupo. Deve,
porém, fazê-lo sem excessiva rigidez, combinando
disciplina e regras com um ambiente descontraído e
humano. "Os cantadores devem ajudar o mestre a expor
as suas ideias sobre as "modas" e colaborar com
ele na manutenção de um grupo disciplinado".
"O cantador tem amor ao cante, sacrifica a vida pessoal
pelo cante, sendo essas duas qualidades, aliadas ao saber
do mestre, essenciais à sobrevivência do cante".
2. "Polifonia do Cante":
- "Há muitos aspectos do
cante por estudar e analisar. Não basta estudar as
suas origens, é necessário aprofundar o repertório
desde o início do século. Mas a investigação
deve não só estudar como intervir na perspectiva
do futuro, contribuindo para o ensino e aprendizagem do cante
e fornecendo instrumentos aos mestres".
"É necessário estudar a voz: a mudança
da voz no tempo e no espaço. A entrada de jovens nos
grupos transportando outras práticas musicais. O cantador
deve saber ouvir, tal como o cantor de ópera, pois
nem tudo está nas notas".
- Há um vocabulário enorme que descreve a voz
e que é necessário descobrir. Voz cheia para
os "baixos", mais difícil de explicar para
os "altos". Como conseguir o "encaixe"
destas vozes, qual a posição adequada dos cantadores
no Grupo; as vozes mais fortes no meio do Grupo, as mais fracas
nas pontas, as bocas ligeiramente viradas para os ouvidos
do outro".
- "O controlo e colocação da voz: qual
o registo adequado para o 'ponto', para o 'alto' e para os
'baixos', para evitar o desequilíbrio".
"As qualidades vocais: os timbres, as entoações,
as mudanças de registo em algumas vozes, exigindo um
grande controlo da respiração, enriquecendo
a melodia. O treino da voz e estas qualidades facilitam o
ataque à frase musical, com ornamentações
(as vaias, a requinta), o vibrato, pelos 'ponto' e 'alto'.
A identificação do cante na estrutura musical,
a análise acústica da voz, hoje possível
com os novos meios".
- "A relação essencial entre o sentido
do texto e as melodias. A visão alentejana da voz,
relacionada com o vocabulário e a forma de cantar.
- É possível transmitir conhecimentos musicais
simples ao mestre, a acrescentar ao seu "ouvido"
inato, para o ajudar a melhor compreender as vozes do grupo,
o seu timbre, tonalidade e colocação, favorecendo
a qualidade do Grupo e do "cante".
3. "A Continuidade do Cante"
(Mais
Informações)
- "O cante hoje já não
se aprende nos sítios onde era tradicional fazê-lo:
as tabernas". Torna-se tarde para impulsionar a aprendizagem
do cante. Há falta de "pontos", "altos",
bons "baixos". O cante debate-se com a elevada média
etária dos cantadores e a ausência de jovens
nos grupos.
- O que serão os grupos daqui a dez anos? Como remar
contra a maré da indiferença?
"A salvaguarda do cante passa por trazer novas vozes,
novo alento aos grupos, através de escolas de cante,
a partir da infância. Assim, em torno de cada Grupo
Coral, deve surgir, tem de ser criado um Grupo Infantil. De
cada Grupo Coral devem sair duas ou três vontades para
levar por diante esse projecto. É assim que fazem os
ranchos folclóricos ou os clubes desportivos".
- Junto dos estabelecimentos de ensino deve ser divulgada
a criação destas escolas de cante, sensibilizando
professores e estruturas de ensino para este projecto. "A
escola deve incluir o 'cante' no seu curriculum escolar".
- Mesmo se os Grupos Infantis não gerarem imediatamente
cantadores para os grupos adultos, a semente fica lançada,
a aprendizagem iniciada ou feita, e mais tarde ou mais cedo
(aos 30 anos) esses jovens acabarão por ir alimentar
os grupos. "Chegar aos jovens com um repertório
próprio, seleccionado no cancioneiro alentejano e levá-lo
às escolas".
- "As 'escolas' de cante têm de ser espaços
vivos e alegres onde a criança se sinta bem, proporcionando
o convívio, a festa e até a brincadeira".
E devem envolver os pais e a família para quebrar as
imensas resistências de ordem sociocultural e não
fazer com que o cante seja um exercício de sacrifício
e de rara compensação para os jovens.
4. "O Cante como manifestação
artística e espectáculo cultural"
- "O cante deve ser cada vez mais
uma manifestação cultural, apresentado, assistido
e ouvido com o mesmo estatuto e dignidade das restantes expressões
musicais".
- "Para isso, o cante deve ter cada vez mais qualidade,
um repertório cada vez mais genuíno e tradicional,
os grupos trajarem com mais cuidado e rigor e ser eliminado
nas actuações o amadorismo mais ingénuo
e desculpável". Como exemplo: as "modas"
mais 'pesadas' e exigentes só devem ser cantadas por
grupos que tenham "baixos" em número suficiente.
Outro exemplo: os grupos devem cantar preferencialmente "modas"
do cancioneiro da sua terra ou da sua região, genuínos
e sem adulterações.
- Os grupos em traje etnográfico devem ser rigorosos
consigo próprios, evitando a menor falha na indumentária
e eliminando todos os adereços deslocados do traje
(telemóveis, autocolantes, emblemas, etc.).
- "Os públicos que apreciam o cante preferem ouvi-lo
em auditórios adequados e são cada vez mais
exigentes sobre a escolha do repertório e a capacidade
melódica do grupo".
- Os grupos devem cada vez mais programar as suas actuações,
visando públicos atentos e novos, evitando actuações
em grandes aglomerados de pessoas, tipo romaria ou feira,
que só desacreditam o cante e o esforço do cantador.
5. "Cancioneiro"
- "O cancioneiro tradicional alentejano
é inesgotável". Não é necessário
'reinventar' ou adulterar o cancioneiro através de
modas "novas", sobrepostas sobre melodias já
existentes ou modificando os versos da moda, normalmente para
pior.
- "Todos os grupos devem cantar modas do cancioneiro,
sobretudo quando se apresentam para públicos diferenciados".
As modas alusivas à sua terra natal ou de residência,
normalmente adaptadas de outras, devem ser cantadas no lugar
preciso, sobretudo em eventos locais no concelho ou encontros
de conterrâneos.
- Os Grupos que sobrepõem instrumentos musicais nas
modas estão a adulterar o 'cante' e o cancioneiro.
- A Associação Moda tem em curso a elaboração
e recolha do cancioneiro tradicional o qual também
está a ser gravado a "solo", para que os
Grupos o possam ouvir e estudar e assim recuperar as modas
tradicionais.
- A Moda irá fazer uma escolha de cem modas, bem representativas
do cancioneiro, que os Grupos associados deverão treinar
e ensaiar, já que serão essas a integrar uma
colectânea de gravações em CD a ficar
como testemunho para o futuro.
6. "Organização dos
Grupos"
- Os Grupos devem ter condições
mínimas de sobrevivência enquanto associações
autónomas e procurar instalar-se em sede própria.
- "A sua função principal é o 'cante',
devendo exigir condições de actuação
dignas, semelhantes às dos outros agentes culturais,
nomeadamente palco e aparelhagem sonora de qualidade".
- "Os órgãos da MODA devem promover a realização
de Encontros como o do Alvito, ao nível do concelho
ou da região onde devem juntar os grupos associados".
Encontros concelhios dirigidos a todos os cantadores dos Grupos
em questão, onde estes temas ou outros já abordados
em Aljustrel, devem ser expostos abertamente. Só assim
se podem sensibilizar todos os cantadores e transmitir-lhes
as ideias aqui apresentadas. Só o mestre não
é suficiente para essa tarefa, pois tem dificuldade
em elaborar a síntese do debate e dos assuntos focados
nestes Encontros, de grande valia para o progresso dos Grupos
e qualidade do cante.
7. "O cante e os poderes locais"
- "Os poderes locais têm de
prestar todo o apoio ao cante e aos grupos infantis".
- "Os poderes locais devem elaborar uma estratégia
de valorização do cante, projectando-o ao primeiro
nível de prioridade cultural".
Aos grupos deve ser conferido estatuto artístico e
cultural e todo o apoio financeiro e logístico à
sua actividade.
- "Qualquer Grupo Coral supera, em número de elementos,
em entrega, em actuações (entre 30 a 40 por
ano) e em representatividade o clube de futebol local, mas
os apoios reservados a cada um são extremamente distantes.
Os Grupos devem exigi-lo como seu direito e não como
deferência do poder".
- "Os poderes locais não devem olhar para os grupos
com paternalismo, utilizando-os para preencher os programas
das festas dos municípios, normalmente como parentes
pobres". Devem considerá-los como agentes culturais
de corpo inteiro, de grande mérito e interessarem-se
pelo andamento dos seus projectos que mais não são
que a preservação do património mais
importante do Alentejo que é o cante.
8. "O cante como património
cultural"
- "O cante é um património
do Alentejo, talvez o mais singular e o que melhor identifica
e distingue o 'povo' alentejano".
- "O cante deve ser declarado património do Alentejo
e ganhar dessa forma um estatuto particular, na atenção
que deve merecer dos poderes locais e das instituições
culturais de âmbito nacional".
Alvito, 15 de Outubro de 2001
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