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DEBATE SOBRE O CANTE ALENTEJANO

 

"Ouvindo o passado, escutando o futuro"
25 de Nov. de 2000, em Aljustrel


Realizou-se no dia 25 de Novembro de 2000, em Aljustrel, um ENCONTRO SOBRE O CANTE ALENTEJANO que contou com a presença de representantes de 62 Grupos Corais e diversos sócios singulares e convidados num total de cerca de 250 pessoas.

Este encontro proporcionou através da apresentação de um conjunto de comunicações e intervenções, uma reflexão sobre o "cante" e a actividade dos Grupos Corais, salientando-se, em especial, o futuro dos Grupos e a qualidade do "cante".

O ENCONTRO decorreu, durante todo o dia, em três partes, sintetizando-se nos pontos seguintes as principais conclusões:


1) "CANTE" - A ALMA DO POVO ALENTEJANO

a) O "cante", "património vivo" do Alentejo, é uma expressão genuína da tradição vocal profundamente enraizada na alma do povo alentejano, determinante para a conservação da sua identidade cultural e que constitui simultaneamente uma referência fundamental da região.

b) O modo de cantar e o amor ao "cante" estão intrinsecamente ligados à memória do tempo em que os cantadores tinham uma ligação profunda ao trabalho e ao mundo rural. Mesmo com essa memória e esse tempo a desaparecer, o "cante" mantém intactas as características da sua expressão vocal, a solenidade e a paixão na sua interpretação. Desse modo, o "cante" dificilmente será cantado e interpretado fora do contexto em que nasceu, ou seja, no Alentejo e pelo povo alentejano.

c) Apesar destas características, a sobrevivência do "cante" alentejano obriga a que seja prestada uma atenção permanente a novas formas de sensibilização dos "jovens", através de grupos corais juvenis, da divulgação e da "aprendizagem" nas escolas bem como objecto de estudo nos conservatórios.

d) Os Grupos Corais estão, de um modo geral, "envelhecidos", carentes de vozes novas e a exigir renovação. Devem por isso criar condições para atrair cantadores jovens, abrindo-lhes as portas e aceitando-os com entusiasmo e sem quaisquer complexos, disponibilizando-lhes os ensinamentos necessários.


2) O GRUPO CORAL E A SUA ORGANIZAÇÃO

a) O Grupo Coral é por definição o intérprete do "património vivo" do "cante", cabendo-lhe, a importante tarefa da sua divulgação e promoção.
Para o conseguir devem ser verdadeiras instituições culturais, autónomas e com intervenção activa nas comunidades em que se inserem, defenindo anualmente um programa de actividades dinâmico e actuante.
Devem possuir expressão legal, com órgãos sociais eleitos, sede própria, mantendo-se independentes do poder político.

b) O Grupo Coral deve ter como preocupação fundamental, a qualidade do "cante", mantendo as características próprias do "cante" da sua região, mais arrastado, mais melódico, mais espiritual, mais solene ou mais profundo, consoante o caso.
A qualidade do "cante" está associada a um número mínimo de boas vozes e por isso o Grupo deve evitar a dispersão e a perda de contactos, bem como lutar contra a proliferação de Grupos na mesma localidade ou em localidades próximas, perdendo-se as vozes de qualidade.

c) Os Grupos Corais, enquanto associações culturais, devem captar sócios entre os cidadãos das suas comunidades, constituindo-os apoiantes e amigos do "cante" e do Grupo Coral, atribuindo-lhe acções no domínio da promoção, apoio financeiro, apoio logístico, participação nos orgãos sociais, trabalho de pesquisa, recuperação e valorização do cancioneiro tradicional e ainda o estudo dos traços etnográficos da região do Grupo.

d) Os Grupos Corais, enquanto elemento fundamental de divulgação do "cante" devem ser entendidos pelos poderes públicos como verdadeiros agentes culturais, e não como parentes pobres para completar programas e festas onde o "cante" é muitas vezes elemento acessório. Devem por isso ser financiados em condições idênticas às dos restantes agentes culturais, sociais ou desportivos.

e) Nas actuações, quando convidados para programas por instituições privadas ou públicas devem exigir condições técnicas mínimas e condignas idênticas às que proporcionam aos outros grupos musicais, incluindo o pagamento de cachet.

f) Um Grupo Coral enquanto entidade integrada na comunidade, para além da preservação do "cante", deve participar nas festas genuinamente populares e recuperar as antigas manifestações de carácter religioso ou profano, como os cânticos de Natal, ao Menino, as Janeiras, os Reis, as festas de Aleluia ou outras.


3) IMAGEM E ETNOGRAFIA

a) O Grupo Coral deve concentrar o seu repertório no cancioneiro tradicional sem proceder à sua adulteração, mantendo a originalidade e a sonoridade das modas, cantadas com solenidade, sensibilidade e paixão, resistindo aos apelos à facilidade e aligeiramento do "cante".
Para isso, deve fazer o levantamento completo das modas da sua região, tanto da letra como da música, cantá-las e efectuar o seu registo fonográfico, para impedir o seu desaparecimento.

b) Nas suas actuações o Grupo Coral deve ter um porte de dignidade e um traje de rigor na apresentação, sem nenhuma concessão ou facilitismo.
O Grupo deve ter um mestre sabedor e líder, ganhar o equilíbrio e o ritmo certo nas interpretações, com os cantadores concentrados, tanto nos ensaios como nas actuações, para permitir ao "ponto" e ao "alto" que encontrem o tom adequado ao desenvolvimento da "moda".

c) Os Grupos podem ter um traje genuinamente etnográfico, ou simplesmente um traje idêntico para todos os cantadores.
Deve haver por parte dos cantadores do Grupo brio, gosto, sobriedade e orgulho pelo traje que vestem, e no traje etnográfico respeito pela verdade. Os Grupos de folclore constituem o exemplo que devemos seguir.
Uma das grandes fragilidades do "cante" e da sua imagem reside na forma como muitos Grupos descuram o traje e a postura nas suas actuações.

d) O traje, etnográfico ou não, deve ser de rigor, despido de todos os objectos, adereços e acessórios modernos que desvirtuam a figura do Homem/Mulher alentejano(a) que o Grupo pretende representar. Os cantadores devem conservar esse traje durante todo o período em que o Grupo se encontra no recinto ou na povoação onde vai actuar.


4) A IMPORTÂNCIA DA "MODA"-ASSOCIAÇÃO DO CANTE ALENTEJANO

a) A "MODA" que foi gerada no seio de vários Grupos Corais e amigos do "cante", constitui-se para divulgar, promover e enriquecer a tradição vocal do Alentejo. Dará por isso todo o apoio aos Grupos que a suportam ou a ela se dirijam, tendo em vista credibilizar e dignificar o "cante" e os seus intérpretes, e valorizar e acrescentar qualidade às intervenções e actuações.

b) A "MODA" tenderá a ser uma referência, um porta-voz, uma barricada, um porto de apoio para quantos vêm no "cante" a expressão mais autêntica da identidade cultural do povo alentejano.

c) A "MODA" juntará todas as forças para mobilizar as energias e inventar formas de dar novo impulso à vida dos Grupos, proporcionando-lhes meios e perspectivas de afirmação como agentes e dinamizadores do desenvolvimento cultural nas suas localidades.

Aljustrel, 25 de Novembro de 2000



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